sábado, 14 de maio de 2011

Constipação

       Dor no peito, aguda, fulminante... Surgiu de repente. Pressão interna alta e prestes a fazer boom. Procuro um clínico geral. O diagnóstico não poderia ser mais banal - constipação. A lágrima ficou presa no peito, constipou o duto, travou a saída. O laxativo não relaxou a alma, o supositório supôs dor crônica, o anti-hipertensivo não evitou a explosão e a lágrima permaneceu ali, entalada. Dor lacropétrica. O tratamento é rude, invasivo e pouco eficaz. Devo, inevitalmente, romper as divisórias de mim mesma ou esperar perecer com o tempo.

Constipei, não chorei, fechei os olhos e, então, parti.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sol by Sol


Definindo o meu ser...


Menina sapeca

Nasci em 1986. Queria ter nascido antes, ido em Woodstock, vivenciado o tropicalismo, quem sabe, até mesmo, a semana de Arte Moderna. Mas, enfim, 86 tá bom. Cazuza estava vivo, exagerado, Renato ditava um faroeste cabloco, Rita em constante mutação, os raimundos ainda não tinham se perdido para igreja e os mamonas aprontavam uma tal de suruba que ninguém entendia, mas adorava. A Simoni viajava num balão mágico, o Rick Martin ainda era hetero e o Mussum ainda atrapalhava por aí.
Tive sempre uma vida mundana. Me embebedava com Biotônico Fontoura, ouvia Sandy e Junior e dançava Back Street Boys escondido. Por volta dos 12, descobri o desejo sexual. Comecei a ensaiar em copos como encostar os lábios (da boca, isso mesmo) e sonhar com o príncipe encantado. Me imaginava, fascinada, encostando minha mão trêmula em seus dedos, enlaçando sua palma com todo meu desejo. Que menina sapeca! Mal sabia que teria mais coisa pela frente. Gente!!! Ele pôs a língua dentro da minha boca. Credo!!! Humm... Mas é bom, gostei disso... Dizem que isso é o tal beijo. É bem melhor que o copo. O gelo era muito mais, anh..., gelado!

Tim tim..

Parei no tempo.  As horas passam e meus pés estão atados. Já não tenho pelo ou pele e rancaram-me a alma. Minha alma! Oh, meu Deus, foi-se tudo o que eu tinha. A mente, o corpo, a vida. Ah, a vida já não é a mesma... é não-vida. Tudo ficou estático e cinza. Perdeu a cor e o gesto e esqueceu o sentido. Cabeça relapsa, negligente, se fez de cega perante os fatos. E agora... a cegueira é permanente.
Sem muitos subterfúgios, espero um dia poder fazer uma cirurgia de córnea... Ou quem sabe um transplante encefálico. Mas na condição de brasileira dependente do SUS ou do plano de saúde, abdico de toda a ilusão. De qualquer forma, UNIMED não mede minha ânsia e meu peito está em ataque, mas não cardíaco, estriônico, se covalesce nos gestos e se abrupta nas palavras.

- Garçon, desce uma dose, por favor.
- Cachaça, Vodka, Whisky... um coquetel, talvez..?
- O coquetel está bom. Haloperidol, Fernegan e um pontinha de Gim. E por favor, travesseiro na cabeça, copo e gelo na mão.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos...


Eu estava aqui vagando pelo youtube e de repente me pego chorando frente a esse vídeo. Espero que também apreciem.

Um beijo carinhoso,

Sol

Sophia Lee

Hoje estou pensando em Rita. Cabelos vermelhos, peitos pequenos não siliconados, rebeldia incessante. Mulher ora sol, ora lua, e entremeios fera, bicho, grito, canto. Pede desculpas pelo Auê, seus nervos não são de aço... (Acho até que são de papel, rasgados, surrados, rasurados....)

Rita Sophia Lee Helena Jones Camargos e Carvalho....

Nossa, de repente me vi misturada! Uma mistura de tanto e de nada, um vazio que não sei explicar. Necessidade de me misturar, preencher, rechear. Rechear um quadro pálido de finas bordas e tinta esmiuçada. Rechear o que não se vê ou se toca, aquilo que só eu mesma, raramente, encontro.

Rita, minha querida, onde estão meus cabelos rubros? Meu grito está tão mudo e minha rebeldia está se domando. Mas meu peito ainda é pequeno e o interior tão vasto. Há ainda muito o que preencher, vazios errádicos que restaram do tempo. Ritinha, ritinha, meu mundo agora são pílulas de bem-estar...


Pássaro levantou vôo
Saiu rasante pelos jardins de margarida
Bem - te- vi, Arara Azul
Pássaro borboleta
Metamórfico...
Transeunte...
Guiado pelos medos
Trilhado pelo desejo
          (da felicidade)
Voa, andorinha, voa
Plana suas asas vistosas pelo vento que te guia
Descobre seu caminho
Que seu canto não é mais solidão
Se ajusta à medida...
...tamanho exato do amor em seu coração!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Amigos...

           Amigos são a família que escolhemos em vida, a dedo, a tato, em alma. Muitas vezes mais família  que muitos familiares. Como definir o amor amigo? Este é eterno, supera o sexo, a cor, o egoísmo, o desejo e as dores. Acolhe sem dizer nada ou pedir justificativa, zela, cuida, ri e chora. Dizem até que o amor é quando o silêncio a dois é confortador. Já o amigo, vai além. Até mudo se entende. O amigo é entendido com apenas um olhar e a partida não é motivo de dor, pois há a certeza do amor infinito, incapaz de ser ceifado até mesmo com a morte.

Hoje celebro as 25 primaveras de um grande amigo. E a ele deixo minha dedicatória.


Thi

(Dedicado ao meu amor, irmão, meu Thico)

Atesto com este documento
 Que aos meus amigos devo a minha vida e o seu prosseguimento,
Minhas memórias, amores e resignamentos,
 Acalentados no meu coração
 Que fique registrado
 Que o amor eu aprendi com você, meu amado
 Zelo, carinho e cuidado
 Pai, irmão, paixão
 Em thi minh´alma se parte e se soma
E não some na escuridão.

                                                                              Sophia Helena

terça-feira, 10 de maio de 2011

As crianças de hoje

Estou cheia dos "psiquismos". Não se fazem mais especialistas e pesquisadores como antigamente. Ainda que se aceite a complexidade do ser humano, a magnitude e importância da ciência Freudiana, Lacaniana e Junguiana (e assumo serem os estudos do primeiro minha paixão) e o estudo das relações sociais e comportamento humano, os ditos especialistas estão ora óbvios, ora extremamente parciais em suas críticas. Assuntos atuais como o bullying, massacres de Columbine e Realengo, os adolescentes cada vez mais acríticos e as distorções comportamentais que vivenciamos na sociedade atual têm sido alvo de opniões de especialistas cada menos especializados. Respostas prontas como "a culpa é do feminismo que tirou a mulher da instância patriarcal burguesa que representa o núcleo familiar" ou "o assassino de realento sofreu bullying e por isso voltou a escola para matar" deveriam ser inaceitáveis. Esteja a mulher trabalhando ou não, a responsabilidade é de ambas as partes na educação e afeto dispensados a criança desde o seu nascimento. Ensinar a discriminar o certo e o errado, castigar os desacatos e desrespeitos, promover a conscientização dos atos e criar um ser humano capaz de sentimento e exergar o próximo, ser solidário e fazer valer o significado maior da palavra EDUCAÇÃO cabe a ambos progenitores. E o amor fica como base em tudo isso. Superar traumas de infância é uma luta que demanda tempo, mas também afeto e tratamento. Todos são capazes. Mas um ambiente familiar propício, ainda que adaptado a realidade econômica atual, é primordial. Culpar experiências passadas por comportamentos radicais é eliminar toda a ciência psicanalítica na sua crença nas possibilidades de crescimento de cada ser e ruir todo o estudo da psicologia acerca das possibilidades de tratar usando a fala e o corpo em uma busca de saúde física e mental sem que isso resulte em danos a terceiros.

Por essas e outras, o simplismo anda me chocando cada vez mais....

Mundo quadrado
Geométrico
De tantas formas
Cores
Seres
Sabores
Circo humano
Palhaadas do bicho homem
Gozam de si mesmos
Sádicos
Errádicos
A ignorância é dom
...faz feliz
Se não o fosse
Circo caia a tenda
Palhaço perdia o nariz
Leão cortava a juba
Platéia esquecia de ir
Brasil seria hexa
...na copa do IDH
Mas o país é matemágico
Milhões somem sem rastro
E a roda do mundo faz girar..

                          Sophia Helena

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Clarice

    Há três mulheres no mundo cujo verbo, verso ou vida me são exemplo. Para mim, são um grão de areia cinzenta num mundo tom de pastel, onde o cinza errante amanhece desnudando tudo que há em volta, estilhaçando verdades impostas e dando cor nova ao que cerca. Um tom cinza e cor, ao mesmo tempo, pois o pastel já é dono de tudo o que mais se segue.
    Essas Divas, guerreiras, sempre olharam muito em volta, mas não ficaram estáticas. Pra mim, cravaram seu nome no mundo, ou ao menos no meu mundinho particular.
   Primeiro, Clarice (Lispector). Nela, me defino. Cito um de seus pensamentos no qual me confundo, seu Devaneio:
"Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, ás vezes erro completamente o que prova que não se trata de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. (..) Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de me tornar adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei."
Será isso Clarice ou , quem sabe a ousadia, talvez um pouco de Sophia? Entre os bipolares, sinto que a incerteza é unânime, independente das peculiaridades de cada um. Incerteza do gesto, do não gesto, do verbo, do que vem de dentro e se "verbeia" exteriorizando o que não se sabe. Ser bipolar não é fácil mas, de certa forma, da tempero á vida.
     Minha segunda musa é Pagu, Patrícia Galvão. Muitos talvez a conheçam pela música de Rita e Zélia, outras duas mulheres fantásticas.
Desde pequena, a frente do seu tempo, Pagu fez história como guerreira até nos deixar aos 53 anos de idade. Para as várias Pagus que ainda se destacam por ai, deixo minha sincera gratidão e exímio orgulho. Gratidão não pelo exemplo, apenas, mas por realmente lutarem por uma ideologia, tentarem fazer do mundo algo melhor, olharem além dos seus umbigos, muitas vezes fora de moda, sem aquele tanquinho sarado tanto exigido pelo olhar voraz dos machos da espécie. Minha Pagu não merece só referência, mas ilustração. Eis um vídeo para qualquer um desejam ver alguém que fez a vida valer a pena:
E por último, mas não menos importante, minha mãe. Jamais poderia deixar de citá-la. A flor, a forma, o fruto, a casca. A natureza completa de uma guerreira. Psicóloga, poetisa, humana e de carne, que ora sangra, ora se alegra, ora grita, ora chora, mas se ergue. Mãe, mais do que nunca, parabéns pelo seu dia.
Deixo aqui um poema dela, meu exemplo e minha força.

Amor

O meu amor por você
Como lhe dizer
se não tem fórmula ou conceito?
Pois é amor de fazer (e viver)
E fala (alto!)
nos gestos miúdos
e  pequeninos feitos:
o preparo do bolo
a estória
o laço no sapato
a bainha na calça
a conversa a caminho da escola
a cabeça em meu braço
o mingau quentinho no prato
a reprimenda
o colo...:

Doses concentradas de afeto
em minúsculos frascos...

Obrigada, mãe, por todos esses frascos!